Performance | Os Serrenhos do Caldeirão de Vera Mantero

Teve ontem lugar pelas 21h00 no Centro Cultural Miguel Madeira, em Vila Franca das Naves, a performance “Os Serrenhos do Caldeirão” de Vera Mantero.

Os Serrenhos do Caldeirão – exercícios em antropologia ficcional, é um trabalho elaborado por Vera Mantero a convite da DeVIR/CaPA/ Faro, no âmbito do Festival Encontros do Devir, em torno da desertificação/desumanização da Serra do Caldeirão, no Algarve. Cruzando as suas próprias recolhas vídeo com as recolhas em filme de Michel Giacometti, sobretudo aquelas feitas em torno das canções de trabalho, Vera Mantero lança um forte olhar sobre práticas de vida tradicionais e rurais em geral, conhecimentos das culturas orais de norte a sul do país e de outros continentes.

Concepção e interpretação Vera Mantero | Desenho de luz Hugo Coelho | Captura de imagens e elaboração de guião para o vídeo Vera Mantero | Montagem vídeo Hugo Coelho | Excertos vídeo da Filmografia Completa de Michel Giacometti Salir (Serra do Caldeirão), Cava da Manta (Coimbra), Dornelas (Coimbra), Teixoso (Covilhã), Manhouce (Viseu), Córdova de S. Pedro Paus (Viseu) e Portimão (Algarve) Excertos de textos de Antonin Artaud, Eduardo Viveiros de Castro, Jacques Prévert e Vera Mantero |Residências Artísticas Centro de Experimentação Artística ‐ Lugar Comum/Fábrica da Pólvora de Barcarena/Câmara Municipal de Oeiras e DeVIR/CaPA/Faro | Co‐produção DeVIR/CaPA | Produção O Rumo do Fumo | Agradecimento Editora Tradisom | Este projecto foi uma encomenda dos Encontros do DeVIR da DeVIR/CaPA/Faro.

Isabelle Launay sobre “Os Serrenhos do Caldeirão”

Crítica | Isabelle Launay sobre Os Serrenhos do Caldeirão

“Tu prestas homenagem à potência dessa cultura e à “sabedoria motora” dessa comunidade. Prestas homenagem a essa forma que os camponeses têm de organizar uma dimensão estética no seu trabalho [agrícola], forma de articular trabalho, dança e canto. Tu celebra‐los à tua maneira, ligeira, e essa celebração ligeira não ilude uma dimensão nostálgica. (…) Além disso, tu não os objectificas, não os transformas em objecto de estudos ou objecto de curiosidade. Porque tu és afectada por eles, o desaparecimento deles diz‐te respeito.

Mas como não gostas de te levar a sério, e como não queres que a arte se leve demasiado a sério, organizas a tua maneira de lidar com a gravidade da situação. E então transformas as ruínas desta cultura em nova matéria de jogo. Inventas, a partir destas ruínas, um corpo‐árvore‐criança. Como diria Charles Juliet sobre uma criança que se passeia num museu, “os saltos de uma pequena miúda por sobre dois mil anos de história”.

Uma sequência permaneceu fortemente em mim, aquela que resume talvez um dos aspectos da tua relação com essa cultura que é também uma parte da tua: aquela em que, de costas, tu cantas à tua maneira, sem palavras, um canto de trabalho para aqueles que se tornaram doravante sujeitos de imagens de arquivo.

A revolução portuguesa não soube, não quis, salvar esse passado rico e miserável. Felizmente que ele tem artistas, não para o salvar, mas para fabricar um pequeno clarão nascido do encontro entre o outrora e o presente.”

Isabelle Launay (Paris VIII, depto Dança). (tradução da versão reduzida)

António Guerreiro sobre “Os Serrenhos do Caldeirão”

Crítica | António Guerreiro sobre Os Serrenhos do Caldeirão

“Que faz uma bailarina na Serra do Caldeirão? Tudo menos dançar, certamente, pois tudo aí é imobilidade, já não há ninguém e só se ouve o silêncio: o bailarino que deixa de ouvir a música não pode continuar a dançar, ou então faz movimentos grotescos. É verdade que na dança contemporânea a música pode ser o puro ruído, ou ser apenas música implícita. Mas o silêncio da serra é outra coisa: é a suspensão de todo o movimento humano. Por isso, a peça acaba por ser muito mais um poema – um poema como os de Artaud, “um homem que, como diria Herberto Helder, tinha as correntes da terra ligadas às correntes do poema”, diz Vera ‐, já que a poesia tem um pacto antigo com o silêncio. Não entendamos, por poesia, aquela coisa enfática e decorativa que faz as delícias das almas sensíveis, sempre à beira da exclamação patética, mas a palavra que recebe e transmite vibrações extremas, “as correntes da terra”. Se quisermos, o solo da Vera também pode ser um romance, uma ficção antropológica (“antropologia ficcional”, chamou‐lhe ela, convidando o espectador a não acreditar em tudo o que ouve). O que não pode ser é um trabalho etnográfico, segundo o consabido modelo da viagem ao país dos diferentes ou até dos arquétipos, por mais que utilize material vídeo e audio do arquivo de Michel Giacometti. Seja o que for – poema, romance, ensaio ou imagina‐ ção antropológica sob a forma de um solo de dança que de dança tem muito pouco –, é uma obra que resulta num diagnóstico político e cultural de vasto alcance. Ela mostra‐nos que um problema poético pode ter um valor epistémico e viceversa. E mostra também, no confronto com a “festa” dos diferentes – os serrenhos – que houve um tempo em que a palavra que canta e celebra era a mesma que a palavra que faz, que realiza. E essa palavra traçava um círculo mágico, no interior do qual tudo é muito mais dado à alegria do que à melancolia.”

Excerto da Crónica Estação Meteorológica, de António Guerreiro, publicada no Público – Ípsilon, a 13/12/2013 (o texto integral pode encontra‐se na Mediateca fMD15, aberta de terça a sábado, das 17h00 às 19h30)

Os Serrenhos do Caldeirão de Vera Mantero

cartaz

Os Serrenhos do Caldeirão | Exercícios em Antropologia Ficcional de Vera Mantero

24 Outubro | 21h00 | Performance | Centro Cultural Miguel Madeira |  Vila Franca das Naves

Os Serrenhos do Caldeirão – exercícios em antropologia ficcional, é um trabalho elaborado por Vera Mantero a convite da DeVIR/CaPA/ Faro, no âmbito do Festival Encontros do Devir, em torno da desertificação/desumanização da Serra do Caldeirão, no Algarve. Cruzando as suas próprias recolhas vídeo com as recolhas em filme de Michel Giacometti, sobretudo aquelas feitas em torno das canções de trabalho, Vera Mantero lança um forte olhar sobre práticas de vida tradicionais e rurais em geral, conhecimentos das culturas orais de norte a sul do país e de outros continentes.

Toda a peça é povoada de vozes que vêm de longe. Silêncio. A serra. Vera canta para os poucos serrenhos que permanecem. Mas não é só de música que se trata, é também da palavra e da terra; a palavra de Artaud em combustão, a palavra de Prévert martelado em jeito de poesia sonora, a palavra estranhamente familiar de Eduardo Viveiros de Castro.

Com este “retrato alargado” dos Serrenhos do Caldeirão, Vera Mantero fala‐nos de povos que possuem uma sabedoria que perdemos, uma sabedoria na ligação entre corpo e espírito, entre quotidiano e arte. Mas uma sabedoria que podemos (e devemos, para nosso bem) reactivar.

“as melodias daqui são muito bonitas e todas de tendência “orientalóide”. parece que são “em eólio” (por serem assim lindas e enleadas…). (…) e é frequente encontrar‐se um curto estribilho que reza assim: “oh, tão lindo!”. oh, tão lindo. oh. tão lindo. oh tão lindo. há gente assim, que se sabe espantar com a beleza. (…) podia talvez fazer uma montagem com vários “oh, tão lindo!” juntos e misturados. como a sequência de beijos na boca no fim do Cinema Paraíso”. (Transcrição de notas de Vera Mantero)

Concepção e interpretação Vera Mantero | Desenho de luz Hugo Coelho | Captura de imagens e elaboração de guião para o vídeo Vera Mantero | Montagem vídeo Hugo Coelho | Excertos vídeo da Filmografia Completa de Michel Giacometti Salir (Serra do Caldeirão), Cava da Manta (Coimbra), Dornelas (Coimbra), Teixoso (Covilhã), Manhouce (Viseu), Córdova de S. Pedro Paus (Viseu) e Portimão (Algarve) Excertos de textos de Antonin Artaud, Eduardo Viveiros de Castro, Jacques Prévert e Vera Mantero | Residências Artísticas Centro de Experimentação Artística ‐ Lugar Comum/Fábrica da Pólvora de Barcarena/Câmara Municipal de Oeiras e DeVIR/CaPA/Faro | Co‐produção DeVIR/CaPA | Produção O Rumo do Fumo | Agradecimento Editora Tradisom | Este projecto foi uma encomenda dos Encontros do DeVIR da DeVIR/CaPA/Faro.