António Guerreiro sobre “Os Serrenhos do Caldeirão”

Crítica | António Guerreiro sobre Os Serrenhos do Caldeirão

“Que faz uma bailarina na Serra do Caldeirão? Tudo menos dançar, certamente, pois tudo aí é imobilidade, já não há ninguém e só se ouve o silêncio: o bailarino que deixa de ouvir a música não pode continuar a dançar, ou então faz movimentos grotescos. É verdade que na dança contemporânea a música pode ser o puro ruído, ou ser apenas música implícita. Mas o silêncio da serra é outra coisa: é a suspensão de todo o movimento humano. Por isso, a peça acaba por ser muito mais um poema – um poema como os de Artaud, “um homem que, como diria Herberto Helder, tinha as correntes da terra ligadas às correntes do poema”, diz Vera ‐, já que a poesia tem um pacto antigo com o silêncio. Não entendamos, por poesia, aquela coisa enfática e decorativa que faz as delícias das almas sensíveis, sempre à beira da exclamação patética, mas a palavra que recebe e transmite vibrações extremas, “as correntes da terra”. Se quisermos, o solo da Vera também pode ser um romance, uma ficção antropológica (“antropologia ficcional”, chamou‐lhe ela, convidando o espectador a não acreditar em tudo o que ouve). O que não pode ser é um trabalho etnográfico, segundo o consabido modelo da viagem ao país dos diferentes ou até dos arquétipos, por mais que utilize material vídeo e audio do arquivo de Michel Giacometti. Seja o que for – poema, romance, ensaio ou imagina‐ ção antropológica sob a forma de um solo de dança que de dança tem muito pouco –, é uma obra que resulta num diagnóstico político e cultural de vasto alcance. Ela mostra‐nos que um problema poético pode ter um valor epistémico e viceversa. E mostra também, no confronto com a “festa” dos diferentes – os serrenhos – que houve um tempo em que a palavra que canta e celebra era a mesma que a palavra que faz, que realiza. E essa palavra traçava um círculo mágico, no interior do qual tudo é muito mais dado à alegria do que à melancolia.”

Excerto da Crónica Estação Meteorológica, de António Guerreiro, publicada no Público – Ípsilon, a 13/12/2013 (o texto integral pode encontra‐se na Mediateca fMD15, aberta de terça a sábado, das 17h00 às 19h30)