Isabelle Launay sobre “Os Serrenhos do Caldeirão”

Crítica | Isabelle Launay sobre Os Serrenhos do Caldeirão

“Tu prestas homenagem à potência dessa cultura e à “sabedoria motora” dessa comunidade. Prestas homenagem a essa forma que os camponeses têm de organizar uma dimensão estética no seu trabalho [agrícola], forma de articular trabalho, dança e canto. Tu celebra‐los à tua maneira, ligeira, e essa celebração ligeira não ilude uma dimensão nostálgica. (…) Além disso, tu não os objectificas, não os transformas em objecto de estudos ou objecto de curiosidade. Porque tu és afectada por eles, o desaparecimento deles diz‐te respeito.

Mas como não gostas de te levar a sério, e como não queres que a arte se leve demasiado a sério, organizas a tua maneira de lidar com a gravidade da situação. E então transformas as ruínas desta cultura em nova matéria de jogo. Inventas, a partir destas ruínas, um corpo‐árvore‐criança. Como diria Charles Juliet sobre uma criança que se passeia num museu, “os saltos de uma pequena miúda por sobre dois mil anos de história”.

Uma sequência permaneceu fortemente em mim, aquela que resume talvez um dos aspectos da tua relação com essa cultura que é também uma parte da tua: aquela em que, de costas, tu cantas à tua maneira, sem palavras, um canto de trabalho para aqueles que se tornaram doravante sujeitos de imagens de arquivo.

A revolução portuguesa não soube, não quis, salvar esse passado rico e miserável. Felizmente que ele tem artistas, não para o salvar, mas para fabricar um pequeno clarão nascido do encontro entre o outrora e o presente.”

Isabelle Launay (Paris VIII, depto Dança). (tradução da versão reduzida)